sexta-feira, outubro 22, 2004

O Piriquito Canta aos Berros...#3

Fica aqui mais uma das muitas cronicas publicadas na primeira (ou segunda) versão do Canta Piriquito Canta. Esta crónica era assinada por ana no seu espaço "O Piriquito Canta as Berros....". Era a cronica #3 e foi publicada a 23 de Agosto de 2002.

UM FELIZ AMOR COM BOM SABOR

-”Rita, amo-te tanto!... Casas comigo?”
-”…Oh, Tiago, claro que caso contigo!... Eu também te amo muito!”

E beijaram-se na boca um do outro, mas sem muita saliva à mistura. E em silêncio. Tiago era um jovem com quem qualquer rapariga às direitas sonharia casar. Não era feio, não tinha vícios, asseado q.b., pouco exigente com a comida, romântico, fiel e até um pouco arisco na cama!... (Sim, na cama, porque Tiago tinha sido educado de um modo muito conservador e achava que “fazer amor, só debaixo do cobertor”). Esta é uma história de amor feliz. Rita era muito jovem mas o seu passado pesava bastante. Uma infância triste, sem pais e com fome, uma adolescência acidentada, até algumas viagens ao mundo da droga e do crime. Mas a vida tem surpresas para toda a gente, e o acaso fez com que Tiago conhecesse Rita e por ela se apaixonasse. Ela deixou o amor dele entrar e esforçou-se para que o dela saísse. Juntos, fizeram planos e o futuro de Rita, que antes lhe parecia negro, iluminou-se e mostrou-se cor-de-rosa.

-”…Oh, Tiago, claro que caso contigo!... Eu também te amo muito!”


Rita levou para a igreja um vestido branco e comprido que Tiago lhe oferecera. A boda foi alegre e muito simples, só para os sete amigos mais chegados de ambos, uma vez que já nenhum deles tinha pais. Tiago sempre tinha sido um rapaz trabalhador e poupado; conseguiu que o patrão arranjasse um emprego para Rita lá na fábrica, e agora tinham o privilégio de partilhar o almoço e o autocarro que os trazia ao emprego.



Esta é mesmo uma história de amor feliz!... Quando celebravam um ano de casamento, nasceu a filha que tanto desejavam. Perfeita, saudável e aparentemente muito esperta.
Tiago passou a ir sozinho para a fábrica, deixando todas as manhãs as suas mulheres no apartamento do amor. Passava o dia com saudades de Rita e da pequena Luciana.

Os dias passavam depressa. A bebé descobria o mundo; eles acompanhavam maravilhados o desenvolvimento de Luciana e descobriam constantemente pequenas alterações que mostravam o seu crescimento.
Numa 6ª feira em que o céu estava cinzento, Tiago regressava a casa, ansioso como sempre por ver os dois seres que davam sentido à sua vida, e desejando que não chovesse.
Ao entrar, estranhou não ver, como de costume, Rita a colocar flores na mesa posta. Ela gritou-lhe da casa de banho. Tiago foi esperá-la à porta. Rita saiu e aproximou a testa dos lábios de Tiago, para que ele a beijasse como de costume. Mas quando se afastou, ele notou que a sua expressão estava diferente, não irradiava alegria mas sim preocupação.

-“Que tens, meu querido repolhinho?”

(Tiago recorria várias vezes ao seu imaginário de infância, passada no campo, para falar carinhosamente com Rita. “Repolhinho” caía-lhe que nem uma luva; ele gostava do seu corpo pequeno e rechonchudo).
Rita queixou-se que Luciana, ao mamar, apertava os seus mamilos cada vez com mais força, o que lhe provocava muitas dores; agora começava a notar que estavam a ficar pisados e deformados.
Tiago acalmou-a. “Isso deve ser normal, a minha mãe aguentou e todas as mulheres aguentam e não se queixam. Tu é que te comportas como uma bonequinha de cristal, meu rabanete adocicado!...”

Os dias continuaram a seguir-se uns aos outros, como sempre.
Rita recomeçou a fumar (“um cigarrito de vez em quando faz-me tão bem…”) e Tiago descobriu várias garrafas de vodka vazias espalhadas pelos armários da cozinha.
À noite, Tiago deitava-se cedo como de costume, cansado, mas agora Rita deixava-se ficar na sala (“aproveito a noite, enquanto Luciana dorme, para ler aqueles romances que sempre adorei…”).
Tiago notava que a sua mulher estava diferente e custava-lhe aguentar o tesão provocado por tantos dias sem contacto físico, mas era do conhecimento comum que as mulheres atravessam uma fase estranha depois de darem à luz, ele sabia que tudo voltaria ao normal…

O comportamento de Rita agravara-se e Luciana fizera dois meses. Ao chegar a casa, Tiago não pôde beijar a bebé porque Rita a tinha levado para a casa da sua melhor amiga, “para que passemos uma noite especial, inesquecível… Tenho saudades das nossas noites apaixonadas!”.
Tiago nem cabia em si de contente, e havia mais uma coisa que de repente quase não lhe cabia nas calças… Mas Tiago aguentou-se, porque Rita preparara um jantar especial. A mesa estava enfeitada com velas perfumadas e pétalas vermelhas espalhadas… Ela estava linda, metida num sedoso vestido branco com botõezinhos dourados à frente.
Comeram calmamente; a comida, preparada com tanto amor, tinha um sabor como ele nunca tinha provado. Depois da sobremesa, que Tiago teve dificuldade em engolir por já ter comido tanto, Rita levantou-se.
“Antes do café, quero que saibas que essa carninha que devorámos foi a responsável por isto!...”
E desapertou os botõezinhos dourados do vestido e mostrou os seios, quase totalmente roídos, em carne viva!
O horror do que via e o choque o assaltou impediram que Tiago raciocinasse de imediato, mas aos poucos foi-se apercebendo que esta já não era uma história de amor feliz… Teve a certeza disso quando as palavras se juntaram no seu cérebro: COMI A MINHA FILHINHA…



1 Comments:

At 7:32 da tarde, Blogger 3ap said...

LOLL...Lindo!

 

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